PEC da Segurança avança sem redução da maioridade; entenda a estratégia do relator
Relator apresenta parecer da PEC da Segurança sem redução da maioridade
PEC da Segurança avança sem redução da maioridade; entenda a estratégia do relator. O relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, senador Rogério Carvalho (PT-SE), apresentou nesta terça-feira (3), no plenário do Senado Federal, seu parecer sobre o projeto sem incluir as emendas que pretendiam reduzir a maioridade penal. A decisão mantém o foco da proposta nas mudanças relacionadas à organização e à integração das instituições de segurança pública, mas não encerra a discussão sobre a idade mínima para responsabilização criminal. O assunto provocou divergências entre parlamentares do governo e da oposição e chegou a contribuir para o adiamento da votação da PEC em outubro. Agora, o relator propõe que as iniciativas sobre maioridade penal sejam discutidas separadamente, por meio de propostas próprias. Dessa forma, o Senado poderá avançar na análise do projeto principal sem necessariamente resolver, neste momento, uma das questões mais controversas da pauta política nacional.
Relator apresenta parecer da PEC da Segurança sem mudança na idade penal
Ao apresentar o relatório, Rogério Carvalho rejeitou as emendas que buscavam inserir a redução da maioridade penal no texto principal da PEC. Entre as iniciativas retiradas do parecer estavam a proposta do senador Rogério Marinho (PL-RN), representante da oposição, e a apresentada pelo senador Camilo Santana (PT-CE), líder do Partido dos Trabalhadores na Casa. Embora as duas sugestões defendessem alterações na idade de responsabilização criminal, elas estabeleciam critérios diferentes. Para o relator, a discussão precisa ter uma tramitação independente, permitindo que os parlamentares examinem o tema com profundidade e sem comprometer o andamento da proposta de segurança pública. Além disso, Carvalho argumentou que já existe uma comissão especial na Câmara dos Deputados encarregada de debater a redução da maioridade penal, cujo relatório deveria ser submetido à votação em novembro. Assim, o senador considera mais adequado evitar que assuntos distintos sejam reunidos em uma única alteração constitucional.
Como as propostas sobre maioridade penal serão encaminhadas?
Para construir uma saída política para o impasse, o relator transformou as emendas relacionadas à maioridade penal em requerimentos destinados a permitir que o assunto seja tratado por meio de propostas autônomas. A intenção é encaminhar essas iniciativas à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, onde poderão ser examinadas separadamente da PEC da Segurança. Entretanto, o procedimento ainda depende de uma decisão do plenário. Caso o requerimento seja aprovado, as propostas seguirão para a comissão e terão uma tramitação própria. Por outro lado, se a solicitação for rejeitada, a possibilidade de incluir a redução da maioridade penal no texto principal da PEC será submetida à votação dos senadores. Portanto, a estratégia apresentada por Carvalho não significa que o debate foi encerrado ou que a mudança na idade penal foi definitivamente descartada. Na prática, o objetivo é organizar a discussão e evitar que a controvérsia impeça o avanço da proposta principal.
Redução da maioridade penal provocou impasse no Senado
A divergência em torno da idade de responsabilização criminal já havia provocado consequências na tramitação da PEC. Em 15 de outubro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), decidiu retirar a proposta da pauta depois que governo e oposição não conseguiram chegar a um acordo sobre as emendas. A iniciativa apresentada por Rogério Marinho previa reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos como regra geral. Além disso, estabelecia a possibilidade de responsabilização a partir dos 14 anos em casos de crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas e terrorismo. O senador e outros integrantes da oposição defendiam que a alteração fosse incorporada ao projeto de segurança pública como uma resposta ao debate sobre criminalidade e responsabilização de adolescentes. Entretanto, a proposta encontrou resistência entre parlamentares governistas, que consideraram inadequado misturar essa discussão com as mudanças estruturais previstas na PEC.
A alternativa apresentada por Camilo Santana tinha alcance mais restrito: a redução da maioridade para 16 anos seria aplicada somente em situações envolvendo crimes hediondos. Apesar de ter sido apresentada por um integrante do próprio PT, a proposta também provocou divergências dentro do partido e entre representantes do governo federal. O Planalto afirma não ser contrário à discussão sobre o tema, mas defende que uma eventual mudança seja analisada em uma PEC específica. A justificativa envolve principalmente os efeitos sobre a tramitação legislativa. Como o texto da Segurança Pública já passou pela Câmara dos Deputados, qualquer alteração de mérito feita pelo Senado obrigaria o projeto a retornar à Casa de origem para uma nova análise. Consequentemente, o cronograma de aprovação seria prolongado. Além disso, o governo considera prioritário avançar na criação do Ministério da Segurança Pública, iniciativa anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e avalia que o impasse poderia atrasar esse planejamento.
Governo busca preservar votação da PEC da Segurança Pública
A decisão de separar os assuntos também está relacionada ao cenário político e eleitoral. A segurança pública é considerada um tema sensível para o governo Lula, especialmente porque envolve cobranças da sociedade por medidas de combate à violência e ao crime organizado. Durante as articulações anteriores, integrantes do Planalto avaliaram que uma votação sobre a redução da maioridade penal poderia gerar desgaste político, principalmente se os parlamentares governistas precisassem rejeitar uma mudança que conta com apoio de parte expressiva do eleitorado. Por isso, a possibilidade de discutir o tema em uma proposta independente passou a ser vista como uma alternativa para diminuir a pressão sobre a base aliada. Ao mesmo tempo, a oposição procura manter a alteração na pauta e argumenta que o debate não deve ser adiado. Nesse contexto, a apresentação do parecer sem as emendas representa uma tentativa de destravar a tramitação, preservar o conteúdo principal da PEC e deixar a disputa sobre a idade penal para outro momento legislativo.
Quantos votos são necessários para aprovar a PEC?
A votação da proposta de segurança pública exige um quórum qualificado, conforme as regras constitucionais aplicáveis às emendas à Constituição. Para ser aprovada, a PEC precisa receber pelo menos três quintos dos votos dos senadores em dois turnos de votação. Como o Senado possui 81 integrantes, são necessários 49 votos favoráveis em cada etapa. Portanto, não basta que o texto obtenha maioria simples: o apoio mínimo precisa ser alcançado tanto no primeiro quanto no segundo turno. Caso a proposta seja aprovada sem alterações em relação ao texto que veio da Câmara, ela poderá seguir para promulgação, procedimento que formaliza a inclusão da mudança constitucional sem depender de sanção presidencial. Se, entretanto, houver modificações de mérito, o texto deverá retornar à Câmara dos Deputados para nova apreciação. Por esse motivo, a preservação do conteúdo original é considerada estratégica pelo governo e pelos parlamentares interessados em acelerar a conclusão da votação.
O parecer apresentado por Rogério Carvalho, portanto, representa uma tentativa de conciliar interesses políticos diferentes e impedir que a discussão sobre a maioridade penal paralise a PEC da Segurança Pública. De um lado, o governo pretende aprovar as mudanças relacionadas à integração das forças de segurança e manter o planejamento de criação de um ministério específico para a área. De outro, a oposição insiste em discutir regras mais rigorosas de responsabilização criminal para adolescentes, enquanto parlamentares de diferentes partidos ainda divergem sobre o alcance e o momento adequado dessa mudança. A decisão final dependerá da votação dos requerimentos e do posicionamento dos senadores em plenário. Se as propostas forem encaminhadas à CCJ, a maioridade penal continuará em debate, mas fora do texto principal da PEC. Assim, o resultado dessa articulação poderá definir não apenas o ritmo da reforma da segurança pública, mas também os próximos passos de uma discussão que envolve legislação penal, políticas públicas e diferentes visões sobre o enfrentamento da criminalidade no Brasil.