Flávio Bolsonaro revela o que não pretende contar sobre sua saída do Brasil
Flávio diz ao NYT que fugiu sem ajuda e levará detalhes “para o túmulo”
Flávio diz ao NYT que organizou sozinho sua saída do Brasil
Flávio Bolsonaro revela o que não pretende contar sobre sua saída do Brasil. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputou a Presidência da República e foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou ao jornal norte-americano The New York Times que organizou por conta própria sua saída do Brasil rumo aos Estados Unidos. Na primeira entrevista concedida após chegar ao território norte-americano, o parlamentar declarou que não recebeu ajuda de governos ou de terceiros e que não pretende revelar como a viagem foi planejada. Ao comentar os detalhes da operação, disse que levará essas informações consigo “para o túmulo”. A conversa foi publicada nesta quinta-feira (5) e trouxe novos elementos sobre a decisão de deixar o país, a relação do senador com seu pai, Jair Bolsonaro, e seus planos de continuar atuando politicamente mesmo no exterior. Além disso, a entrevista reacendeu discussões sobre as circunstâncias da viagem e as investigações que envolvem o parlamentar no Brasil.
A conversa com Jair Bolsonaro antes da viagem
Segundo o relato apresentado por Flávio ao jornal, a decisão de deixar o Brasil teria sido tomada depois de uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar. Na ocasião, a Polícia Federal teria solicitado a entrega dos passaportes do senador, situação que, conforme sua versão, influenciou diretamente a escolha de partir. Flávio contou que o pai percebeu a gravidade do momento e perguntou se ele compreendia o que poderia acontecer a partir daquela notificação. O parlamentar afirmou que respondeu estar preparado e saber o que precisava fazer. Ainda segundo a entrevista, os dois não conversaram sobre um plano de saída do país. Flávio atribuiu a decisão a uma iniciativa pessoal, tomada em conjunto com sua esposa, Fernanda Bolsonaro. Ele também reconheceu que tinha amigos no exterior, mas afirmou que eventual apoio teria se limitado a manifestações de torcida, sem participação direta na organização da viagem.
Relatos sobre a saída de Flávio Bolsonaro levantam questionamentos
A versão de que a viagem foi organizada exclusivamente pelo senador, entretanto, contrasta com informações divulgadas por veículos de imprensa sobre a logística da saída. Reportagens anteriores da CNN Brasil e da Folha apontaram que a operação está sendo investigada e teria envolvido duas vans, além da participação de Menachem Booky Halevy, identificado como ex-agente do serviço de inteligência israelense Mossad. A Folha informou que a Polícia Federal apura a possível participação dele no episódio e eventual descumprimento de uma determinação judicial que impedia Flávio de deixar o Brasil. Além disso, reportagens do The New York Times e do Wall Street Journal indicaram que o jato particular utilizado no deslocamento até Miami teria sido providenciado por Jason Miller, ligado à equipe política de Donald Trump. Esses relatos não esclarecem, por si só, todos os detalhes da operação, mas mostram por que a afirmação de ausência total de ajuda passou a ser questionada. Flávio, por sua vez, não revelou informações adicionais sobre o planejamento.
Críticas ao Supremo e investigações envolvendo o senador
Durante a entrevista, Flávio voltou a criticar o Supremo Tribunal Federal (STF), classificando a atuação da Corte como politicamente motivada. As críticas foram direcionadas especialmente ao ministro Alexandre de Moraes, responsável pela relatoria de processos relacionados à tentativa de golpe de Estado atribuída ao grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador também questionou a atuação do Judiciário em procedimentos que envolvem sua família e aliados. A reportagem da CNN Brasil ressaltou, contudo, que Flávio não havia sido formalmente acusado por crimes naquele momento, embora fosse investigado em procedimentos no Supremo. Entre os assuntos mencionados estão suspeitas relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse e possíveis irregularidades financeiras envolvendo o advogado Willer Tomaz, amigo do parlamentar. As apurações incluem suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, que ainda precisam ser tratadas como hipóteses investigativas, e não como condenações. Dessa maneira, é importante distinguir as declarações políticas do senador das informações e dos elementos que estão sendo examinados pelas autoridades.
Flávio Bolsonaro volta a questionar o resultado das eleições
Outro tema importante da conversa foi a derrota eleitoral para Lula. Flávio afirmou que perdeu para o que chamou de “sistema” e voltou a levantar suspeitas sobre a confiabilidade do resultado, chegando a classificar a votação como matematicamente impossível. Entretanto, as alegações de fraude não foram acompanhadas, na entrevista, de provas que demonstrassem irregularidades capazes de alterar o resultado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), observadores internacionais e o próprio Partido Liberal reconheceram a regularidade do processo eleitoral, conforme destacado na reportagem. O jornal também apresentou dados para contextualizar uma das alegações do senador: depois das 17h, horário inicialmente previsto para o encerramento da votação, foram registrados aproximadamente 34 mil votos, enquanto a diferença entre Lula e Flávio chegou a cerca de 4,4 milhões de votos. Apesar disso, o parlamentar afirmou que pretende contestar judicialmente o resultado, embora reconheça que suas chances de obter sucesso são pequenas. A possibilidade de questionamento, portanto, continua sendo apresentada por ele como parte de sua estratégia política.
Agenda política no exterior e relação com Donald Trump
Mesmo vivendo nos Estados Unidos, Flávio afirmou que pretende manter contato com aliados no Brasil e continuar defendendo pautas apresentadas durante sua campanha presidencial. Entre os temas mencionados estão a redução da maioridade penal e mudanças relacionadas à dosimetria das penas aplicadas aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo seu pai. A dosimetria corresponde aos critérios utilizados pela Justiça para estabelecer o cálculo das penas, considerando as circunstâncias previstas na legislação. Portanto, o assunto envolve debates jurídicos e políticos sobre a aplicação das condenações. Na entrevista, o senador também comentou a postura de Donald Trump diante das eleições brasileiras. Flávio afirmou que não responsabiliza o presidente norte-americano por não ter interferido no processo eleitoral e classificou essa postura como correta. Ao mesmo tempo, agradeceu pela possibilidade de permanecer nos Estados Unidos e demonstrou expectativa de encontrar Trump em algum momento. Segundo a reportagem, porém, o presidente norte-americano não havia indicado planos de realizar uma reunião com o senador brasileiro.
Permanência nos Estados Unidos e planos para o futuro político
Flávio Bolsonaro afirmou que sua família está se adaptando à rotina nos Estados Unidos, mas espera que a permanência no país seja temporária. O parlamentar também não descartou disputar novamente uma eleição presidencial caso uma nova oportunidade eleitoral seja aberta no Brasil. A declaração indica que ele pretende preservar sua atuação política mesmo distante do território nacional, utilizando contatos com aliados e manifestações públicas para defender suas propostas. Ao mesmo tempo, sua situação permanece cercada por questões judiciais e pelo debate sobre as circunstâncias de sua saída do país. A entrevista ao New York Times não encerrou essas dúvidas: pelo contrário, colocou em evidência a diferença entre a versão apresentada pelo senador e os relatos publicados sobre a participação de outras pessoas na viagem. Assim, o episódio reúne três dimensões que devem continuar sendo acompanhadas: as investigações sobre a saída do Brasil, os procedimentos em que Flávio é mencionado e a tentativa de manter influência no cenário político nacional a partir dos Estados Unidos.